sábado, 18 de julho de 2009

Estrela da vida inteira (Manuel Bandeira)

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Tenho o fogo de constelações extintas há
milênios.
E o risco brevíssimo - que foi? passou - de
tantas estrelas cadentes.
A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.
O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.
Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Não quero o êxtase e os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.
As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.
Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.
- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Cartas do Pe. Aldo 83

Asunción, 05 de julho de 2009.

Caros amigos,
Estou no avião, voltando de São Paulo, depois de dois dias de convivência com estes amigos excepcionais (no sentido que Giussani e Carrón nos ajudam a entender quando usam este adjetivo): Marcos, Cleuza, os coordenadores do movimento, Padre Julián, Alexandre, Enzo etc.
Estou “felicíssimo”, comovido como, naquele dia, os apóstolos ficaram, no Tabor, ou quando, pela primeira vez, encontrei Giussani na Via Martinengo, ou quando encontrei Julián Carrón, aqui em São Paulo, há dois anos atrás. Comigo, vieram Carlos Samudio, responsável da Companhia das Obras no Paraguai, e Tonino Saladino. Também para eles foi uma comoção incrível. Saladino renasceu, viu o que é o movimento, viu aquilo que o seu coração desejava, reencontrou a juventude, a ternura por si mesmo. Mas, deixarei que ele escreva para vocês o que lhe aconteceu.

1. Uma amizade excepcional que nasce do reconhecimento de Carrón como pai, como a continuidade histórica de Giussani. Muitos me perguntam, mesmo no Brasil: “O que tocou mais a você naquilo que Carrón disse nos Exercícios?”. A minha resposta é: “o seu modo de viver a fé, a sua paixão por Cristo e, portanto, pelo humano, pela humanidade de cada um, a sua capacidade de apontar os Zerbini como o sinal mais claro da presença de Cristo, do que o Movimento, desafiando, assim, o nosso ceticismo”.
Exemplos dessa amizade excepcional. Cheguei a São Paulo na quinta-feira à noite com Tonino e Carlos. Os Zerbini estavam me esperando. Três coisas me deixaram literalmente sem palavras:
a) Marcos estava usando uma camisa de Ao-Poi (um tecido típico do Paraguai), que eu lhe havia presenteado 15 dias atrás. Cleuza me disse: “Esta manhã, quando se levantou, eu o vi fuçando no armário e lhe perguntei: ‘Marcos, o que está procurando?’; e ele respondeu: ‘Hoje, chega o amigo P.e Aldo e quero recebê-lo usando a camisa que ele me deu de presente”. O que eu poderia dizer? E, além do mais, sendo um deputado, ele tinha um monte de trabalho para fazer.
b) Naquela tarde, tinha um compromisso com o governador do Estado de São Paulo (que tem 38 milhões de habitantes) e com o cônsul italiano. Chegou ao compromisso com uma hora de atraso. O governador lhe perguntou: “Marcos, por que este atraso (eles são amigos)?”. E Marcos respondeu: “Precisava ir receber o meu caro amigo Padre Aldo, porque tenho necessidade de estar com quem me lembra Jesus, com quem vive a consciência do Mistério”. Eu lhes conto essas coisas com vergonha e porque vocês são meus amigos... mas, onde, hoje, podemos encontrar homens com esta estatura? E o governador ficou tocado. Como gostaria que todos os meus amigos compreendessem porque Carrón nos indica este homem, Marcos, e Cleuza!
c) A sopa para o Padre Aldo. De noite, depois da Escola de Comunidade com o amigo P.e Julián, da qual participaram mais de 100 pessoas, todos tomaram sopa. Aquilo que se arrecada é para as Casinhas de Belém: mil dólares também neste mês de julho. Mas, por que para as Casinhas de Belém, com todas as necessidades que eles têm? “Porque a Escola de Comunidade precisa originar um gesto de caridade. E a caritativa da sopa é para recordar os nossos amigos, os rostos dos nossos amigos do Paraguai”. A caritativa como memória de um rosto ou de rostos! É uma coisa, de fato, nova para mim.
2. A participação na Escola de Comunidade, no sábado de manhã. Às 6h, Cleuza “toca”, com a sua voz, o despertador. Café da manhã à brasileira e, logo em seguida, pegamos o rumo para o galpão (3 mil lugares), porque às 7h (era sábado, entendem?!!) começava a primeira Escola de Comunidade. Que surpresa: centenas de jovens, centenas de belas moças – mas belas mesmo! como as brasileiras sabem ser! – correm com o rosto alegre, mesmo que cansados. Cleuza me diz: “Muitos trabalham até a uma da manhã, outros se levantaram às 4h... moram nos quatro cantos de São Paulo (que tem 18 milhões de habitantes)”. Olho, rezo e penso em Giussani que vê, do céu, o reflorescer do Movimento, vê reacontecer aquilo que ele frequentemente repetia para nós: “É necessário criar um movimento no Movimento”. Agradeço a Deus pelo dom de Carrón, que nos indica Marcos e Cleuza para olhar.
Às 7h os salão estava cheio: 3 mil jovens. Uma ordem e um silêncio precisos. Quem chegava um minuto depois era deixado para fora. E alguns permaneciam do lado de fora... olhei para seus rostos e estavam tristes, porque deveriam voltar só no próximo mês. Cleuza me viu preocupado e me disse: “Padre Aldo, hoje, daremos uma anistia para os atrasados, porque você está conosco”. Eu lhe agradeci e os vi felizes.
Uma coisa me tocou, porque é sinal do coração de Cleuza: perto do banheiro se assentaram várias garotas grávidas ou com problemas de saúde. Cleuza me disse: “Olha, reservamos este lugar para elas, que precisam do banheiro mais frequentemente. Assim, estando aqui, não precisam percorrer todo o salão e atrapalhar o silêncio”. Que atenção à pessoa!
Começa a assembléia. A pergunta que fizeram no mês anterior (a assembléia é mensal) era: “Como você está construindo o seu eu?”. Intervenções em cascata, mas não palavras... febre de vida. Marcos guia e responde de modo claro, simples e preciso às perguntas que são fatos da vida. Fatos muitas vezes dolorosos. Uma pergunta: “Quero entender como faço para saber se uma coisa corresponde ou não ao meu coração”. Uma pergunta belíssima, porque parte de um dos 3 mil jovens que não estão “habituados” às coisas que nos dizemos. Frescor, simplicidade, vida. Uma festa de perguntas que querem saber o por quê de tudo.
Não me dei conta e, quando vi, já era a hora da segunda assembléia... outros 3 mil jovens... e, assim, a cada três horas, até domingo à noite. Vim embora com o os olhos cheios e o coração transbordante.

Num mundo onde todos analisam a questão da juventude, se fazem documentos... Aqui, pelo contrário, é tudo simples. Aqui, uma só coisa é evidente: Marcos e Cleuza vivem aquilo que Giussani e Carrón nos testemunharam sempre: uma febre de vida que nasce da paixão por Cristo. Tenho apenas um desejo no coração: "Senhor, faça-me, de verdade, uma só coisa contigo, como Marcos e Cleuza o são"... porque este é o único problema verdadeiro da vida: a fé.
Todas as intervenções sublinhavam duas coisas: o Mistério e a Associação como respostas à necessidade deles. Diziam tudo com este binômio que, na realidade, é uma coisa só: da fé, um método.

Caros amigos, boas férias... recordemo-nos que, deste lado do mundo existe, de verdade, há um outro mundo que vibra, cresce e nos dá um novo coração, porque é mesmo profético para todos e para o mundo inteiro aquilo que está acontecendo em São Paulo. Como Giussani deve estar feliz no céu... vendo, finalmente, realizar-se aquilo que ele sempre disse e que eu escutei, em Viterbo, nos anos 70, pela primeira vez num encontro com professores: “É preciso que nasça um movimento no Movimento”. Mas, para isto, existe um caminho real: seguir Carrón e aquilo que ele nos repete todos os dias. Marcos e Cleuza são filhos de Carrón e este é o coração da questão. Mas – pensem! –, um povo de mais de 100 mil pessoas, que segue duas pessoas simples como a água, humildes e de uma obediência cheia de liberdade a Carrón, o nome mais conhecido no meio desta gente.
O amigo Tonino Saladino, que está comigo há um mês, está também felicíssimo e comovido... não podia acreditar nos seus olhos. Reencontrou o frescor do início, como repete para todos com quem se encontra ou para quem telefona.
Com afeto,
Aldo

domingo, 28 de junho de 2009

Michael Jackson e a destruição do homem (por Dimitri Martins)

"Ontem, por volta das nove da noite, eu acordei. Dormi a partir das oito porque acordei às cinco e meia da manhã enquanto fui dormir às uma e meia do dia anterior. Vi que uma amiga minha tinha me ligado e retornei a ligação. Além do convite para uma festa, ela me contou que Michael Jackson tinha morrido. Eu tomei um susto. Imediatamente fiquei abalado, e depois me surpreendi chorando à meia-noite vendo no Jornal da Globo a morte de Michael Jackson. Logo depois rezei uma Ave-Maria pela sua alma, que ela encontre a paz que tanto anelava nesta terra.
A morte de Michael Jackson é a morte do homem plenamente moderno. É o sinal mais do que evidente de falência da mentalidade que nos circunda. A morte de Michael Jackson é verdadeiramente a morte do homem. Porque Michael Jackson é mais do que o símbolo, mas é a evidência mais perfeita da nossa época, a era mais tenebrosa e gélida de toda a História. A vida (e a morte) - se quisermos ser sábios - de Michael Jackson têm muito a nos ensinar, porque Michael Jackson é "a mais fina flor da época moderna". Michael Jackson, plenamente moderno, colheu todos os frutos das promessas da nossa época: fama e sucesso, mas também solidão e abandono. Um dos homens mais famosos do mundo morreu triste, solitário e endividado.
Ontem eu vi no jornal que "Michael Jackson não soube lidar com a fama". Isto não é verdade! A mídia simplesmente o destruiu, tão-somente porque ela precisa disso, precisa erigir seus ídolos e depois destrui-los, como por exemplo faz agora com Amy Winehouse, dá lucro para a grande mídia os escândalos e as bizarrices desses grandes famosos.
Mas o que está em jogo aqui é muito mais profundo do que tudo isso. O que está em jogo é a concepção de homem.
O que é o homem? O que pode torná-lo feliz?
Será mesmo que o homem não tem uma natureza e é completamente maleável, como ensina a mentalidade dominante? Será que podemos impor à realidade os nossos caprichos sem ter que pagar nada por isso? Será que o caminho da felicidade não é um dado objetivo, mas é definido pelos nossos caprichos e infantilidades? O que está em jogo aqui é isso, e Michael Jackson foi a pessoa que mais levou a longe (ou melhor a sério) os preceitos modernos. Porque, por mais que nos afirmemos "modernos", somos muito tradicionais, objetivos, por mais que defendamos certas coisas nos discursos - graças ao fenômeno da paralaxe cognitiva (que é a separação entre a razão e a experiência, a vida e o pensamento) - somos muito mais objetivos e aderentes ao real do que imaginamos.
A morte prematura de Michael Jackson é a morte prematura do humano. E o humano morre prematuramente porque vem sendo agredido, vem sendo destruído, dilacerado por ideologias burguieso-radicais, como a sociologia do conhecimento, que em nome de um relativismo absoluto (o que é uma contradição em termos, ou seja, um absurdo), afirmam que não há natureza humana e que tudo não passa de uma mera construção social. Michael Jackson é mais fina flor de tudo isso.
Ontem, eu fiquei observando o famoso clip "Thriller". Aqueles zumbis que aparecem ali não surgem à toa. Porque a arte não é algo aleatório. A arte é a expressão do humano, e a expressão do humano que vive agora, ou seja, expressão da época e do meio no qual vivemos. Trocando em miúdos, isto significa que aqueles zumbis são a expressão perfeita do estado humano das pessoas da nossa época: zumbis, qeu servem a um poder, sem pensar, como admiravelmsnte os Cranberries cantam em Zombie (1994): http://www.youtube.com/watch?v=HJEySrDerj0.
Sem sombra de dúvida, Michael Jackson foi um grande artista, e não é sem razão de ser que ele encarnou perfeitamente o espírito da época e lhe deu vazão e expressão, consciente ou inconscientemente. Mas Michael confirma aquilo que outro grande artista, o poeta Bruno Tolentino (1940-2007) já disse: "o artista é aquele que tem uma fome e sede de verdade, de beleza, de felicidade, de liberdade muito grandes, que o incomodam instante após instante, e que entram em decadência se não encontram a resposta".
Michael Jackson inconscientemente é um profeta. Sua vida é um grito. Ela é a prova mais evidente de que algo está muito errado em nossa época, em nossa culturas, no modo de conceber a nós mesmos e aos outros. Algo está muito errado na era mais gélida e terrível da História, esta era de solidão e desamor. Que este apelo não seja ignorado. E que possamos reconstruir o novo nos escombros do velho."
(Dimitri Martins)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Testemunho: "Um encontro para todos"

"Eu tenho 20 anos, sou evangélica e pertenço à Igreja Metodista no Brasil. Conheci a Associação dos Trabalhadores Sem Terra há três anos e desde então muita coisa mudou em minha vida pessoal e profissional. Muitos conceitos que adotei em minha vida como 'verdades absolutas', descobri que não passavam de um meio de subjugar as pessoas que pensavam diferente de mim. Percebi que minha fé em Jesus Cristo estava sendo instrumento de segregação e não de união com as pessoas. Hoje, após conhecer pessoas como Marco e Cleuza, pude entender que a religiosidade mata, mas a fé verdadeira em Jesus Cristo faz ressuscitar.
Conhecer a verdade que liberta é adotar uma postura diferente diante da sociedade consumista e individualista e principalmente não ser mais um incentivador do preconceito religioso. Eu era uma propagadora da intolerância religiosa. Hoje, oro a Deus para que minha vida seja testemunho vivo de que a graça que me salvou, salva toda a humanidade e que graça é amor. Somos todos remidos pelo mesmo sangue e salvos pelo mesmo amor, somos irmãos, filhos do mesmo Pai.
Gostaria ainda de agradecer a Deus pela vida de Marcos e Cleuza, por dedicarem suas vidas a ajudar pessoas que como eu não teriam conseguido cursar uma faculdade, e graças a esse amor que Deus faz brotar em seus corações, fundaram uma Associação para nos ajudar a construir um futuro diferente, não só para nós, mas para todos que ainda virão. Agradeço a Jesus Cristo pela vida de todos os padres membros do Movimento Comunhão e Libertação que, inspirados por Deus, transmitem experiências tão marcantes que nos fazem refletir sobre o rumo que nossas vidas têm tomado."


Natália, São Paulo-SP
(Revista Passos. Junho, 2009)

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Cartas do Pe. Aldo 73


Asunción, 13 de junho de 2009.

Voltei hoje, dia de Corpus Christi, dos Exercícios (refere-se aos Exercícios da Fraternidade de Comunhão e Libertação; ndt). A comoção ao escutar as palavras feitas carne na minha vida e na dos meus doentes é bem expressa na foto de Marciana, circundada por suas últimas pinturas. Ela já está no fim e a cor dominante do “lapacho” (é como é conhecido o ipê no Paraguai; ndt) – uma planta tropica que, quando floresce, indica que a primavera está chegando – é roxo (morado, em espanhol).
Normalmente, os lapachos têm quatro cores e florescem em semanas diferentes, porém todos florescem no fim do “inverno tropical” e indicam que em breve chegará o calor tórrido. As cores são: rosa, roxo, amarelo e branco. Um espetáculo que veste de festa Asunción. Marciana, agora, ressalta o roxo porque está sentindo que se aproxima o encontro definitivo com Jesus. A fé é uma certeza. Não uma lamentação, não uma objeção. A esperança – somente quem vive a esperança consegue pintar até o fim com a ajuda do pai – é, para ela, o já da fé que toca com as mãos e vê com os olhos. Está quase acabada: pesa pouquíssimo, respira com dificuldade, as belas unhas pintadas de vermelho são como buquês de flores. Toda a sua feminilidade está presente... somente a fé que, como nos provoca Carrón, não é um sentimento, mas o reconhecimnto de um fato presente, realiza aquilo que o nosso ceticismo coloca em dúvida ou pensa que não pode durar, e vencer também o câncer e o medo da morte.
Amigos, Marciana é uma metástase só, mas a fé vence as terríveis dores do câncer. Aquilo que a morfina não consegue fazer, nela a fé consegue, até o ponto de conseguir pintar. Então, como não sermos gratos a Carrón que, desde a primeira noite (dos Exercícios da Fraternidade; ndt) nos dizia que “as circunstâncias pelas quais Deus nos faz passar são fator essencial e não secundário da nossa vocação”.
É, de fato, belo olhar para Marciana e para Paulo, porque eles nos dizem que Cristo está vivo. Olhem para Paulo (22 anos... Marciana tem 20): olhem o tamanho do câncer que ele carrega nas costas. Um enorme pedaço de carne podre... porém, olhem para o seu sorriso. Está é a fé, a esperança e a caridade.
Assim, entendo o que quer dizer “da fé, um método” (título dos Exercícios da Fraternidade deste ano; ndt): um caminho feliz mesmo se carregado por um tumor maligno de quase 5Kg ou por uma metástase geral.
Amigos, obrigado! Tudo isso nos é dado porque, de fato, é mesmo possível “viver verdadeiramente assim” (faz referência ao título da obra de Giussani – Si può (veramente!) vivere così?; ndt)
P.e Aldo

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Cartas do Pe. Aldo 65


Asunción, 11 de fevereiro de 2009.

Olhem que milagre: Celeste!
Os médicos disseram: “veio para ser enterrada e, agora, não é mais uma doente terminal. Estava pior do que Eluana quando chegou e, agora, olhem para ela: que bela! Que alegre!”.
Amigos, Giussani continua a me escutar.
De fato, o homem é um mistério e a realidade é o lugar onde se manifesta.
É mesmo bela a minha Celeste!
Pe. Aldo
(Fonte: http://prapacheco.blogspot.com/)

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Papa deixa mensagem especial aos jovens palestinos

video
Bento XVI chegou à Faixa de Gaza na manhã de 13 de maio de 2009, onde declarou o apoio da Santa Sé à constituição de um Estado palestino. O Papa apelou ainda aos jovens palestinos para que não se deixem contaminar pela violência de que foram testemunhas.

domingo, 10 de maio de 2009

O verdadeiro método para vencer a AIDS (by Dimitri Martins)

O verdadeiro método para vencer a AIDS é fazer com que as pessoas se sintam amadas

Artigo publicado no jornal eletrônico Ilsussidiario.net
Entrevista com Rose Busingye


Discutir o problema da Aids a partir da redação dos jornais e dos escritórios políticos das diversas instituições européias é uma coisa; discuti-lo tendo diante dos olhos a situação de dezenas de mulheres soropositivas, e de seus filhos que foram contagiados, é toda uma outra coisa. Rose Busingye dirige o Meeting Point de Kampala, um lugar de renascimento para 4 mil pessoas, entre doentes e órfãos, que de outro modo estariam condenados a viver no silêncio e no abandono o destino dos marcados pelo HIV. Neste local de intensa humanidade, as polêmicas sobre o uso do preservativo para abater o flagelo da Aids chegam como um eco de longe.

Rose, que efeito tem em você ouvir tantas vozes polêmicas em torno de um problema com o qual a senhora luta todos os dias?
Quem alimenta a polêmica em torno das declarações do Papa deve, na realidade, entender que o verdadeiro problema da difusão da Aids não é o preservativo; falar nisso significa parar nas consequências e não ir nunca à origem do problema. Na raiz da difusão do HIV está um comportamento, está um modo de ser. E, além disso, não nos esqueçamos de que a grande emergência é conseguir formas de cura para as tantas pessoas que já contraíram a doença, e para aquelas o preservativo não serve.


Porém, continua o fato de que, de qualquer modo, se pode fazer qualquer coisa para evitar que o contágio se difunda ulteriormente: neste caso, a prevenção não é um instrumento útil?
Retomo um exemplo, para fazer entender como, verdadeiramente, por vezes não nos damos conta da situação na qual vivemos na África. Há algum tempo atrás, vieram alguns jornalistas para fazer uma reportagem sobre a atividade do Meeting Point: viram a condição das mulheres soropositivas que estão aqui e se comoveram. Decidiram então fazer-se úteis, fazendo um pequeno gesto para elas: presentearam-nas com algumas caixas de preservativos. Vendo isto, uma das nossas mulheres, Jovine, os olhou e disse: “Meu marido está morrendo e tenho seis filhos que, em pouco tempo, serão órfãos: de que me servem estas caixas que vocês me dão?”. A emergência daquela mulher e de tantíssimas outras como ela, é ter alguém que a olhe e diga: “mulher, não chore!”. É absurdo pensar em responder à sua necessidade com uma caixa de preservativos, e o absurdo está em não ver que o homem é amor, é afetividade.

E quanto às pessoas que possam ter relações com outras e difundir o contágio?
Também aí vale o mesmo discurso: é necessário, antes de tudo, olhar a humanidade deles. Uma vez, estávamos falando aos nossos meninos da importância de proteger os outros, de evitar o contágio; um deles se pôs a rir, dizendo: “mas que me importa quem são os outros? Quem são as mulheres com quem saio?”. E um outro dizia: “também eu fui infectado, e agora?”. A Aids é um problema como todos os problemas da vida, que não se pode reduzir a um particular. É necessário, antes de tudo, partir do fato de que é preciso ser educado também no viver a sexualidade. Mas a educação remete à descoberta de si mesmo: a pessoa que é consciente de si, sabe que tem um valor que é maior que tudo. Sem a descoberta deste valor – de si e dos outros – não há nada que tenha. Também o preservativo, ao final, pode ser bem utilizado apenas por uma pessoa que tenha descoberto qual o valor do humano, se ama verdadeiramente e se é amada. Pensa-se talvez que onde o preservativo é distribuído não prossegue o contágio da Aids? Enfim, em certos casos o discurso do preservativo, nas condições nas quais nos encontramos, pode parecer até ridículo.

Em que sentido?
Há poucos dias, por exemplo, mostramos a nossas mulheres o que é o preservativo, explicando inclusive as instruções de uso: antes de usá-lo deve-se lavar as mãos, não deve haver pó, deve ser conservado a uma certa temperatura. Foram eles mesmo que me interromperam: lavar as mãos, quando para ter um pouco de água devemos andar vinte quilômetros a pé? E depois tem o problema do pó: até mesmo um grão qualquer pode ser perigoso e arriscar o rompimento do preservativo. Mas, essas mulheres quebram pedras da manhã à noite, e têm a pele das mãos secas, rachadas e duras como a rocha! Por isso, digo que se fala sem conhecer minimamente o problema e as condições na qual nos encontramos.

À luz desta difusa ignorância em relação aos problemas reais das pessoas que vivem na África, que efeito têm as polêmicas contra o Papa?
O Papa não faz outra coisa que defender e sustentar justamente aquilo que serve para ajudar esta gente: afirmar o significado da vida e a dignidade do ser humano. Aqueles que o atacam têm interesses a defender, enquanto que o Papa não os tem: nos quer bem e quer o bem da África. Não é dele que vêm as minas que lançam para os ares nossos meninos, nossas crianças que viram soldados, que se encontram amputados, sem orelha, sem boca, incapazes de deglutir a saliva: e a eles o que damos, os preservativos?

De fato, a Aids não é o único problema que atinge a África.
Existem muitíssimos outros problemas e situações trágicas sobre as quais há total indiferença. Quando, há alguns anos, ocorreu o genocídio em Ruanda, todos estavam observando. Aqui perto existe um país pequeniníssimo, que podia ser protegido e nada foi feito: lá estavam os meus parentes e morreram todos de modo desumano. Ninguém se moveu e agora vêm aqui com os preservativos. Mas, também no nível das doenças, vale o mesmo discurso: por que não nos trazem as aspirinas ou os remédios contra malária? A malaria é uma doença que aqui vitima mais pessoas que a Aids.

Qual a situação de agora, na Uganda, em relação à difusão da Aids?
Em Uganda se estão fazendo grandes progressos e o nosso presidente está trabalhando muito bem e obtendo ótimos resultados. O seu método não é apostar na difusão dos preservativos, mas na educação: instituiu um ministério para isso e colocou pessoas nas vilas de analfabetos para educá-las a uma mudança de vida. A esposa do presidente esteve aqui conosco há pouco tempo e disse com força que o verdadeiro ponto que pode fazer mudar a situação é parar de viver como os cães e os gatos, que devem sempre satisfazer a seus instintos; e falou do fato que o homem é dotado de razão, que o faz responsável por aquilo que realiza. Se o homem continua ligado ao instinto como um animal, dar a ele um preservativo não serve a nada. Mudar as condutas. Este é o método que está dando resultados e teve como consequência o fato de que a difusão da Aids em Uganda baixou de 18% a 3% da população. O método funciona e o coração do método é fazer de um modo tal que as pessoas se sintam queridas. O vemos aqui, no Meeting Point: quando as pessoas chegam aqui não querem mais ir embora.
Fonte: http://dimitrimartins.blogspot.com/